Page 51 - Comunicar na Republica

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I República – Liberdade em ação
A pintura romântica de paisagem e animalista, atenta
aos costumes populares, evoluiu para um naturalismo
com pendor narrativo, folclórico, onde a paisagem se
combina com a importância da figura humana e, por
vezes, com o anedótico.
O naturalismo iniciado nas duas últimas décadas do
século XIX, perdurou longamente no século XX, sem
se deixar marcar pelas tendências realistas, impres-
sionistas e simbolistas presentes nalguns artistas.
Destas propostas estéticas, o realismo, marcado por
intenções políticas e de transformação social, não
teve ref lexos em Portugal antes dos anos 40 do sé-
culo XX, à exceção da obra artística de vários cari-
caturistas como Rafael Bordalo Pinheiro e Leal da
Câmara, entre outros.
Rafael Bordalo Pinheiro, cujos ideais republicanos
avultaram na sua obra durante os anos finais da Mo-
narquia, satirizou não só a família real como os mem-
bros do Parlamento que alternaram no poder.
As principais figuras da vida intelectual portuguesa
tiveram saborosas interpretações materializadas em
publicações periódicas como
A Berlinda
ou o
António
Maria
, entre outras.
A coleção patente no Museu das Comunicações é
rica em manifestações artísticas ligadas às emissões
filatélicas que tipificam a vocação naturalista das ar-
tes plásticas do período em análise.
Domingos Alves do Rego, Roque Gameiro, João Vaz
e João Cristino da Silva são alguns artistas de tendên-
cia romântica e historicista que assinaram as emis-
sões-base e comemorativas dos selos produzidos no
período de 1910 a 1926. Neste período a única pro-
O objetivo da abordagem às artes plásticas em Portu-
gal neste percurso sobre a história das comunicações
no contexto das comemorações da República, teve
em vista divulgar o contributo da arte filatélica, da
arquitetura e de outras expressões artísticas ligadas
às comunicações no universo da arte em Portugal e,
sobretudo, mostrar como estas serviram, algumas
vezes, os propósitos de veicular o ideário republica-
no ao longo dos três períodos em que se divide esta
publicação.
A implantação da República não trouxe consigo no-
vas propostas artísticas, mantendo-se, nas primeiras
três décadas subsequentes àquele marco político, as
tendências naturalistas da pintura.
As «Conferências do Casino» da geração de 70 intro-
duziram o pensamento realista na literatura mas não
modificaram as mentalidades ao ponto de alterar o
cunho romântico da pintura portuguesa.
José Malhoa e Columbano Bordalo Pinheiro, notáveis
pintores, pertenceram ao «Grupo do Leão», constitu-
ído no final do século XIX, que personificou as ten-
dências artísticas na transição da Monarquia para a
substituição do regime.
A obra de ambos os pintores desenvolveu-se, con-
tudo, à margem das propostas da modernidade.
Malhoa desenvolve uma obra naturalista com alguns
apontamentos de motivação sociológica na sua obra
O Fado
.
Por seu lado, Columbano retratou várias personali-
dades da I República bem como um conjunto de per-
sonagens da história de Portugal para o Parlamento
(hoje Assembleia da República).
As artes plásticas e as
comunicações na I República
Cristina Weber
Ao lado: O transporte de correio ferroviário (pormenor), Maria Keil, 1942 (arquivo iconográfico da FPC).
FPC