Page 47 - Comunicar na Republica

Basic HTML Version

47
I República – Liberdade em ação
tada, nos escassos quinze anos e oito meses que
durou, com as elevadas expectativas que nela se de-
positaram.
A política, tema tabu porque reservado às elites do-
minantes durante a Monarquia, torna-se assunto de
discussão e é levado à prática nas ruas das cidades,
quase sempre ao sabor das fações e dos grupos par-
tidários. Neste ambiente, em que o risco de guerra
civil parece eminente, os «talassas» conspiram, os
«adesivos» infiltram-se nas hostes republicanas, os
«púrrias» e as «quadrilhas» praticam a violência a
mando dos chefes republicanos que a usam como ar-
gumento.
No resto do País, a população portuguesa ruralizada,
comandada pelos caciques e pela Igreja, vítima de
profundas desigualdades e injustiças sociais, em que
o analfabetismo era a nota dominante, estava, em ge-
ral, adormecida para estes factos novos: de súbdito a
cidadão vai um longo caminho que, no caso portu-
guês, foi percorrido num ápice.
Como João Chagas admitiu, a República fez-se em
Lisboa e foi transmitida ao resto do País pelo telé-
grafo.
País a várias velocidades, conheceu, no entanto, gra-
ças aos esforços dos seus líderes mais consequentes e
da constituição democrática aprovada em 1911, dois
surtos reformistas importantes em 1910-1911 e, no
rescaldo da Grande Guerra, em 1919 e 1923-1925.
A I República Portuguesa (1910-1926) pode ser consi-
derada um dos períodos mais importantes da vivência
coletiva de Portugal e dos portugueses no século XX.
Este grande ponto de viragem, precedido pela lenta
erosão do regime monárquico marcado pelo Ultima-
to inglês de 1891, pelo escândalo dos «adiantamen-
tos» à casa real, pela experiência ditatorial de João
Franco, correspondeu, na sociedade portuguesa, ao
cada vez mais efetivo divórcio entre as faixas politica-
mente mais ativas e mais esclarecidas da população
e um regime que se mostrava incapaz de superar as
suas contradições.
Disto são sintomas a eleição de deputados republi-
canos em 1906 (quatro), 1908 (sete) e 1910 (catorze),
as defeções de eminentes figuras monárquicas para
o Partido Republicano Português e um clima geral
conspirativo que antes, durante e após o regicídio
cresceu imparável, alimentado por uma Maçonaria
ativa e militante (Grande Oriente Lusitano) e uma
Carbonária radical, apologista da ação direta violenta
como modo preferencial de pôr fim à Monarquia.
Neste caldo revolucionário se forjaram os aconte-
cimentos. A 5 de outubro de 1910 José Relvas pro-
clama a implantação da República da varanda da
Câmara Municipal de Lisboa perante uma multidão
galvanizada.
A Revolução Republicana fez-se sob o lema da «Li-
berdade, Igualdade, Fraternidade» e viu-se confron-
As comunicações e a I República
Isabel Varão
Ao lado: Imagem iconográfica da República (arquivo iconográfico da FPC).
FPC