Page 43 - Comunicar na Republica

Basic HTML Version

43
I República – Liberdade em ação
Estes jovens incomodam a escola ultra-romântica
de Lisboa, cujo líder, o velho Castilho, venerado por
poetas pouco originais mas seus apadrinhados, sente
a sua fácil paz perturbada e, não querendo abandonar
a estética literária que seguia, opõe-se, com intole-
rância, à nova estética literária, entrando em luta com
os jovens intelectuais de Coimbra.
Esta luta, que ficou conhecida por «Questão Coim-
brã» ou do «Bom Senso e Bom Gosto», foi a primeira
manifestação importante da chamada «Geração de
70».
A «Questão Coimbrã», aparentemente literária, re-
f letia e denunciava problemas mais profundos.
Os jovens intelectuais de 1865 reagiram à falsidade
da adaptação das formas novas do liberalismo às es-
truturas velhas do absolutismo, e a revolta da juven-
tude coimbrã desencadeou um movimento político,
filosófico e literário não previsto.
Com os cursos acabados ou não, estes jovens des-
locam-se para a capital, acrescem-se de personali-
dades com tendências afins e, em 1871, promovem
as Conferências Democráticas do Casino, cujo pro-
grama tem como objetivo «colocar Portugal a par
da atualidade europeia, ligando-o com o movimento
moderno, estudando as condições de transformação
política, económica e religiosa da sociedade portu-
guesa» (Barreiros, 1985).
O Ultimato e a crise financeira e económica de 1890-
-1901 contextualizam uma transformação na vida pú-
Antecedentes
Monarquia Constitucional – No atro do
amanhecer da República – de 1870 a 1910
Nos primeiros anos do terceiro quartel do século
XIX, passada a crise da implantação do liberalismo
em Portugal, e depois da morte de Almeida Garrett,
Alexandre Herculano é o paladino da tentativa de
uma história crítica de Portugal. Com o seu retiro em
Vale de Lobos, desapareceu a sua rebeldia. Uma nova
rebeldia intelectual só reapareceria com a geração in-
telectual que se formaria em Coimbra, por volta de
1865.
Portugal, nesta época, já não estava separado do res-
to da Europa. O caminho-de-ferro encurtara a distân-
cia entre Coimbra e Paris, e as inf luências das novas
ideias europeias não se fizeram esperar, quer no pen-
samento quer na cultura do País.
Então, a geração coimbrã de 70 estuda com avidez
o idealismo de Hegel, o socialismo de Proudhon, o
positivismo de Comte e o evolucionismo de Darwin
e Lamark.
Os jovens estudantes de Coimbra estão determina-
dos a combater a estética literária romântica, susten-
táculo da apatia, da modorra, e fazem-se eco de uma
poesia e prosa de conteúdos diferentes e revolucioná-
rios. Entre outros, urge salientar Antero de Quental e
Eça de Queirós.
A literatura na I República
Margarida Mouta
FPC