Page 159 - Comunicar na Republica

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Da Revolução de Abril à Democracia
parte então do conceito de visão artificial para conce-
ber um conjunto de trabalhos que ref lectem sobre os
desenvolvimentos possíveis em torno desta invenção
científica. Assim, em cima de fotografias de diversos
olhos (...) reconstrói as retinas com partes de telemó-
veis. São jogos de cor e de formas, criando uma espé-
cie de
puzzles
sofisticados, construções quase calei-
doscópicas que emulam a ideia de um olho mecânico.
(...) este mecanismo pode ser visto como o novo meio
de comunicação do futuro, um verdadeiro
eye-phone
,
uma vez que esta tecnologia poderia permitir ligar o
cérebro não só aos respetivos olhos, à internet, e a
tantas valências. (...) Se esta utopia comunicacional
tem uma dimensão profundamente positiva pode, ao
invés, ser vista como um pouco “orwelliana”.» Danie-
la Ribeiro, apaixonada pela natureza e pelo contribu-
to da biónica, acrescenta: «o corpo humano deixa de
ser uma torre estática nas suas medidas, mas uma
ponte f lexível que nos liga a todos e a tudo. Não é já
algo que se tenha de preservar como sempre foi, mas
sim um campo de investigação e aperfeiçoamento.»
Independentemente dos diversos significados e pro-
pósitos de caráter simbólico que se depreendem da
observação visual e do texto da artista, as obras des-
ta exposição vivem, sobretudo, de efeitos estéticos e
visuais algo ilusionísticos, representados em função
da associação de diferentes objetos em escala inu-
sual. Este propósito estético é aliás confirmado pelo
recurso à tridimensionalidade expresso no catálogo
que acompanhou a exposição.
natureza e função da instituição que as transporta.
É essa a a descoberta da arte-correio, a sua novidade
e a sua força: transformar um simples serviço públi-
co transportador ou veículo neutro do ponto de vista
semântico, num produtor de cultura, num gerador de
criatividade. (...) É no plural e na escala do globo ter-
restre que a arte-correio se realiza, fora e para além
dos pequenos e interesseiros circuitos da arte e dos
meios de comunicação ditos sociais. (...) ela é mais
uma forma da estética da transgressão que em vez de
ser facilmente absorvida pelo mercado da arte (como
tem acontecido a tantas vanguardas), antes pelo
contrário se serve de uma instituição para difundir
à escala global (no limite) valores que são adversos a
esse sistema e que se projectam numa imagem ainda
esfumada: a utopia do homem que herdará os nossos
erros e acertos, mas que, com maior ou menor inten-
sidade, começa já a habitar dentro de muita gente: o
homem global.»
Olho Biónico, Ensaio de Comunicação
Para celebrar o Dia Mundial das Telecomunicações
de 2010 foi realizada a exposição «Olho Biónico, En-
saio de Comunicação», de Daniela Ribeiro, que, atra-
vés dos desperdícios tecnológicos de dois mil telemó-
veis construiu catorze olhos biónicos
(imagem 15)
.
Filipa Oliveira (crítica de arte da L+
Arte
), que apre-
sentou no catálogo da exposição a obra de Daniela,
refere-se-lhe da seguinte forma: «Daniela Ribeiro
Imagem 15. Beta Comae Berenicis 3721, Daniela Ribeiro, 2010.
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