Página 48 - Códice nº6, ano 2009

Isabel Varão
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Licenciada em História (UL), Pós-Graduada em Ciências Documentais (UL)
A I República e os telégrafo-
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postais: relatos de duas
greves na primeira pessoa
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NortondeMatos eem30de Janeirode 1917 embarcaa 1
a
Brigadaacami-
nho de França.
Todo umcortejo demaiores problemas internos é arrastado pela ade-
são à guerra, defendida, em primeiro lugar, por Afonso Costa e o seu
Partido Democrático. Alémdo acentuar da alta especulativa dos pre-
ços tambémseassisteauma vagadedespedimentos generalizadapor
falta de matérias-primas, em que é imposto um regresso forçado de
muitos operários às suas terras de origem,assiste-se à fuga dos capi-
tais em particular para a Suíça, há uma corrida aos bancos que induz
crescente número de falências quer no sector bancário quer no sec-
tor empresarial e,finalmente,as situações epidémicas eclodemgras-
sando a«gripe espanhola»,a célebre«pneumónica» (que,no total,
fará mais de 100 000 vítimas) e a febre tifóide.
Oaumento do custo de vida é estimado nasmaiores cidades na ordem
dos 99% em Outubro de 1917 e atinge em Janeiro de 1918 os 133%.
Perante esta situação insustentável a agitação das classes laborio-
sas atinge paroxismos inusitados:assaltos a lojas e armazéns de víve-
res, tanto em Lisboa como no Porto, bem como em cidades da provín-
cia.Omais conhecidodestesmovimentosdesorganizados eespontâneos
das populações acossadas pela fome deu-se em19deMaio de 1917 em
Lisboa e ficou conhecido como a «Revolução da batata».
Mas, ao lado destes movimentos mais ou menos anárquicos, surgem
formas cada vezmais organizadas e informadas de expressão de von-
tade dos trabalhadores.
Arredados da representação parlamentar pelas leis da República que
apenas concediam direito de voto aos homens maiores de idade (21
anos), sabendo ler e escrever (cerca de 75% da população portugue-
sa não possuía estas habilitações mínimas) ou que fossem chefes de
família há mais de um ano, aos trabalhadores restava a organização
autónoma em associações de classe muitas vezes de cariz mutualis-
Tempos difíceis
A IRepública (1910-1926) sempre sofreu de uma grande instabilidade
política e social desde a sua implantação até à sua quedaàsmãos dos
militares em 28 de Maio de 1926.
As grandes esperanças geradas pelo movimento republicano sobre-
tudo nasmassas laboriosas das duas grandes cidades,Lisboa e Porto,
que tão activamente tinhamparticipado nomovimento inicial,viram-
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se paulatinamente goradas por uma sucessão de querelas quase
insanáveis entre os vários partidos e os líderes que partilharam o
poder neste período. Por outro lado, nas zonas rurais, onde a notícia
de mudança de regime chegou pelo telégrafo, as populações resisti-
ram passivamente a uma nova situação que não compreendiam por
inteiro, devido a um analfabetismo dominante, ao conservadorismo
atávico que lhes era próprio alimentado pela ligação à Igreja que via
a sua influência contestada pela nova ordem das coisas.
Neste contexto assumem cada vez maior expressão factores econó-
micos comgrande repercussão social como a escassez de bens de pri-
meiranecessidade,bens alimentares emprimeiro lugar.Oaumento do
custo de vida dispara. César de Oliveira,entre outros,calcula que este
aumento se situaria, em média, na ordem dos 66% no período com-
preendido entre 1914 e 1917.
As classes laboriosas, nelas compreendidas quer o operariado urba-
no quer rural quer franjas cada vezmais alargadas da burguesiaurba-
na, vêem diminuir os seus salários drasticamente face ao custo de
vida. A alta especulativa dos preços provocada pelo açambarcamen-
to temumaascensão contínuaque culminanoanode 1917,comaentra-
da do nosso país na Grande Guerra.
A entrada na guerra veio precipitar uma situação próxima da ruptu-
ra. Em9 deMarço de 1916 a Alemanha declara-nos guerra, em Julho é
formado o Corpo Expedicionário Português sob a direcção do general
Greve telégrafo-postal de 1917: um aspecto da «avenida das baionetas» no Terreiro do Paço, acervo iconográfico da FPC.