Página 52 - Códice nº5, ano 2008

Conselheiro e director dos Telégrafos, Guilhermino Augusto de Barros, acervo iconográfico da FPC.
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então chamado Museu Postal que, como acima referimos, era pre-
dominantemente de telegrafia, ou seja, de telecomunicações.
A relação entre a biblioteca (que ao tempo englobava tambémdocu-
mentação de arquivo) e o museu apontava já um interesse didáctico
e científico para o sector das comunicações. Porém,a vertente român-
tica da altura, embora criativa, começou a ceder a outras preocupa-
ções. Em 1886, surgiu a questão do «mapa cor-de-rosa» e a crise
relacionada e, em 1890, o «ultimato inglês».
De ora emdiante,os investimentos públicos não imediatamente ren-
táveis iriam ficar condicionados. Assim,omuseu da actividade de Cor-
reios Telégrafos e Faróis permaneceu sem visibilidade durante déca-
das, o que justificará a falta de documentação técnica, como catá-
logos, desenhos, fotografias, planos e relatórios que demonstrem a
evoluçãodomuseuentreos anos 80do séculoXIX eos anos 30do sécu-
lo XX.
2.
Refundação
Após o longo período de falta de visibilidade,Godofredo Ferreira
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veio
em 1934 relançar a ideia doMuseu dos CTT,chegando a sua sugestão
ao correio-mor Luís de Albuquerque Couto dos Santos. A sugestão
foi bemacolhida. O Sr. correio-mor despachou favoravelmente a pro-
posta, nomeando o chefe de divisão Godofredo Ferreira para traba-
lhar no sentido de«encarar-se rapidamente a efectivação da criação
[
que na realidade foi uma recriação ou refundação] do museu»
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.
Não obstante a corrente favorável à criação de museus no início do
EstadoNovo,juntamente coma acção deGodofredo Ferreira,oMuseu
dos CTT só voltoua ter existênciaoficial,não em1934 conforme as indi-
cações do Sr.correio-mor,mas simem 1947.Entretanto,Godofredo Fer-
reira iniciou uma acção tão urgente quanto meritória, de recolha de
documentação histórica. Em 1947,a par da refundação domuseu,ins-
1.
A criação
Em1878,os CorreiosTelégrafos e Faróis deram início ao projecto de cria-
ção de um museu, tal como se depreende do relatório de Guilhermi-
noAugusto de Barros:«Quanto à Biblioteca eMuseu Postal procurarei
ir coligindo quanto lhe respeita e for possível obter, compenetrando-
me do pensamento civilizador que inspira tal lembrança» (Barros,
1878)
1
.
Porém, este projecto de Museu Postal, assim era designado,
tratava também de telecomunicações e sinalização costeira
2
.
Este
momento do início de um museu, em 1878, foi uma acção meritória,
preconizada pelo ministro das «Obras Publicas, Comercio e Indus-
tria» João Guarberto de Barros, em 1877. Classificamos, porém, este
primeiro acto de «cariz romântico» em conformidade com a menta-
lidade da época e que se terá extinguido nas décadas seguintes.
Assimse explicaa chegadaao século XX e inclusivamente oanode 1934
semdocumentação relevante que ateste a evoluçãodomuseu,excep-
tuando ligeiras notas de que são exemplo o capítulo «Melhoramen-
tos e emprehendimentos» do Relatório Postal de 1877-1878.
Este museu foi inicialmente dotado de um primeiro núcleo de 30
peças
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que se presume seremna quase totalidade de telecomunica-
ções. Com efeito, analisando os registos antigos, começando pelo
número um e até ao trigésimo, verificamos que das trinta peças ini-
ciais,vinte e duas são de telegrafia eléctrica. Foi reservado para estas
peças umpequenomóvel, o que denota um interesse do tipo «gabi-
nete de curiosidades», ainda ao jeito do século XVIII. Não obstante,
este embrião de museu surge-nos associado a um órgão afim - a
biblioteca, também instalada num móvel igual ao do património
museológico.
Os doismóveis ainda seencontrametiquetados epreservados nopatri-
mónio museológico da Fundação Portuguesa das Comunicações e
testemunham o
core memory
ou o primeiro cartão de identidade do
Património museológico
de telecomunicações:
criação e gestão em contexto
Alfredo Anciães
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Licenciado em História e
pós-licenciado em Bibliotecas; Arquivos; Museologia e Gestão do Património.