Página 4 - Códice nº3, ano 2006

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visandooobjectivooposto,ou sejadesvendar o significadodessasmes-
mas mensagens.
Não sem,antes,descrever a traços largos como era encarado o segre-
dodas correspondências pelas sociedades deAntigoRegime,buscando
dois exemplos conhecidos, o da França anterior à Revolução e o caso
português até à vitória do liberalismo.
O sigilo das correspondências: dois exemplos
Desde a Antiguidade que o segredo das comunicações escritas por
razões pessoais, políticas,militares ou outras foi sendo alvo de cons-
tantes atentados. A cada forma de ocultar as mensagens corres-
pondemcircunstânciasmuito concretas deataqueà confidencialidade
das mesmas. Associada a esta realidade tambémesteve quase sem-
pre a condenação «oficial» da quebra de sigilo.
No período anterior à Revolução de 1789, matriz de todas as revolu-
ções,a França conheceua institucionalizaçãodeumaestruturado Esta-
do que procedia sistematicamente à violação das correspondências,
o «Cabinet Noir».
A criação deste«serviço» correspondeu a uma longa evolução desde
a Idade Média e alicerçou-se no processo de construção de um Esta-
do centralizado e unitário, tendo sido Luís XI, um dos seus principais
protagonistas, particularmente insistente na intercepção e violação
das cartas. Esta prática tornou-se, assim, cada vez mais comum,
adquirindo,inclusive,o estatutode direitode soberania,de direito real.
Mas há que notar que ela esteve sempre encoberta,não sendo assu-
mida como tal,pois isso impediria,naturalmente,o livre curso do pen-
samento escrito perdendo, deste modo, a sua utilidade. A reprodu-
ção falsificada dos selos oumarcas de autenticação revela-se,neste
contexto, uma outra forma de encobrimento da quebra de confi-
dencialidade.
O
que poderão ter em comumos planos dos monumentos de Ame-
nemhat III, preparados pelo seu arquitecto Khnumhotep II
(1800
a. C.), a morte da rainha Maria da Escócia (1587), Thomas
Jefferson, autor da Declaração de Independência dos Estados
Unidos da América (1776), o fim da II Guerra Mundial (1945) e a fibra
óptica?
Este conjunto aparentemente aleatório de factos, personagens,
documentos e tecnologias tem,efectivamente,umfio condutor pouco
perceptível a um primeiro olhar. Trata-se de um pequeno enigma, o
quenos introduz directamenteno temaquenos propomos desenvolver,
o do segredo
versus
comunicação, dois conceitos aparentemente
antagónicos e, no entanto, indissoluvelmente ligados no devir da
humanidade.
Efectivamente a pulsão e a necessidade de comunicar pode ter,e fre-
quentemente tem,entraves conscientes à sua difusão. Comunica-se
algo,amensagem,a conjuntos alargados de destinatários,os recep-
tores,aonível da comunicação social,por exemplo,aumauditórioestu-
dantil ouespecializadomas,mais correntemente,noquotidianode cada
pessoa,aumdestinatário preferencial.Na comunicação escrita,numa
carta ou num
e-mail
que se enviam,há a necessidade reconhecida de
queo seu conteúdo,pormais inócuoquepossa ser,apenas seja conhe-
cido pelo destinatário.Agarantia do segredo,da inviolabilidade dessa
correspondência, é umprincípio geralmente aceite em sociedades de
estrutura política democrática, mas a tensão contrária, a da quebra
do sigilo, continua a ser efectiva e permanente.
Assim, propomo-nos verificar como tem sido resolvida esta questão
através das técnicas de criptografia e criptoanálise,isto é,do conjunto
de princípios e, ou, equipamentos pelos quais a informação pode ser
alterada da sua forma original para uma forma ilegível por quemnão
esteja autorizado a aceder ao seu conteúdo e o conjunto de técnicas
Comunicação e segredo:
história breve da criptografia
Isabel Varão
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Licenciada em História pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa - Quadro Superior da FPC
Monge copista, Bíblia dos Jerónimos.