Página 74 - Códice nº2, ano 2005

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Até aqui temos visto o correio estritamente limitado à troca de cor-
respondências, base da sua criação e sua função orgânica,mas deli-
neou-se uma evolução sob a influência da transformação social que
resultou do incremento da grande indústria, consequência domeca-
nismo e da extensão comercial que se seguiu». António Pinheiro,que
foi chefe da ECC, referia-se assim às repercussões do aparecimento
de inventos e técnicas inovadores que marcarama segundametade
do século XIX. Na década iniciada em 1880, constrói-se, em Lisboa, o
Parque EduardoVII,no Porto surgemos primeiros carros eléctricos.Got-
tlieb Daimler inventa o motor de combustão interna, Karl Benz cons-
trói ummotor comumsó cilindro,é criadaa lâmpadade incandescência,
é edificado,emChicago,o primeiro arranha-céus e aparecemà venda
latas de conserva.
No entanto, na capital portuguesa ainda semugem vacas nas ruas,
onde circulam carros puxados por bois e param, encostados às esqui-
nas, os «moços de fretes», que perduraram até meados do século
XX. «Máquinas de suor», como os apelidou Matos Sequeira, ou
«
galegos», porquemuitos eramoriundos desta região de Espanha,
foram os percursores dos modernos serviços urgentes de recep-
ção/entrega de volumes de natureza variada. No filme
A Vizinha do
Lado
,
de António Lopes Ribeiro, de 1945, um «galego» é incumbido
de entregar na residência de um cavalheiro uma carta enviada por
uma senhora.
Mas Lisboanãoéuma cidadeparadano tempo.No censode 1890 tinha
391 206
habitantes,e nos 20 anos seguintes cresceu 11 por cento (435
539
habitantes). Os CTT acompanhavam este engrandecimento,
abrindo estações e assentando «marcos» do correio, «um equipa-
mento simples e conveniente, mas também um sinal de civilização
e de estabilidade da vida urbana!», no dizer de J. P. Martins Barata.
E, em 1882, são inauguradas as redes telefónicas de Lisboa e Porto.
A
difusão das estações dos CTT acompanha o crescimento da cida-
de. Não é uma infra-estrutura primordial para a constituição de
umaglomerado urbano.Mas,se este progredir,é das primeiras empre-
sas prestadoras de serviços a estabelecer-se nessa localidade. Hoje
é assim, tal como era em 1880,quando foi inaugurada a Estação Cen-
tral dos Correios de Lisboa.
Há 125 anos viviam-se transformações estruturantes nos serviços de
correio do reino de Sua Majestade, D. Luís (1838-1889). Foi decretada
a fusão dos Serviços de Correios e de Telégrafos e ainda da Adminis-
traçãodos Faróis,que passavama ser da responsabilidade de umdirec-
tor-geral dos Correios,Telégrafos e Faróis. Guilherme de Barros, anti-
go deputado e governador civil de Bragança,Castelo Branco e Lisboa,
foi o primeiro a assumir o cargo. Numa circular quemandou distribuir
pelos Serviços, sublinhava: «[…] Uma das primeiras qualidades a
assistir-nos é a honradez: quemnão possuir este sentimento nomais
elevado grau dificilmente satisfará as obrigações do seu ofício. […]
o empregado postal deve ser mais do que honrado, cumpre-lhe ser
virtuoso. Ao passo que os seus honorários são módicos […], em Lis-
boa, o trabalho começa às quatro da manhã e dilata-se pela noite;
e sobretudo na ocasião da chegada dos paquetes é rápido, febril, e
exige suores,lance de olhos,e uso de serviço apenas crível;nos outros
pontos do país tem horas de análogo trabalho e muitas são incó-
modas.»
A «Posta Rural» também foi criada e organizada em 1880. Eurico
Cardoso descreve a rudeza deste serviço: «Alguns distribuidores
rurais chegam a percorrer, a pé, 45 quilómetros por dia, fazendo-se
anunciar por um sinal combinado. Além de entregarem e receberem
correspondências, abrem as caixas de trânsito, vendem «estampi-
lhas», «tomam assinaturas para jornais», estando ainda incumbi-
dos de outros serviços.»
Em Glória, de Vasco Pulido Valente, o deputado e aplaudido orador Vieira de Castro, depois de matar a mulher, sai
de casa, na parte alta da Rua do Alecrim, e dirige-se à estação da Praça do Comércio para enviar um telegrama.
A cidade vista da Estação de
Correios da Praça do Comércio
J.M.R. Teixeira Gomes
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Quadro Superior dos CTT - Direcção de Filatelia
Edifício central de correios, Terreiro do Paço, acervo iconográfico da FPC.
Inaugurada há 125 anos