Página 4 - Códice nº2, ano 2005

4
as estruturas sociais e económicas do Portugal medievo,poder-se-iam
caracterizar de precárias,onde a pobreza damaioria da população era
uma constante, tornando-se a, partir de meados do século XIII mais
desafogada,através da consolidaçãodas estruturas políticas e sociais.
As infra-estruturas da mobilidade
Face à precariedade e instabilidade sócio-económica a que o nosso
território foi sujeito ao longo de séculos, principalmente durante os
séculos XaXII,torna-seumaevidênciaaacentuada capacidade/neces-
sidade de mobilidade das populações, face a constantes «razias» e
«
correrias» a que estavam sujeitas.
O condicionalismo militar no território, levou a que grande parte da
população vivesse no limiar da pobreza,protegendo-se junto de cas-
telos ou mosteiros, deslocando-se assim para lugares mais seguros.
Também o carácter religioso e o espírito de cruzada contra o Islão
que imbuía quer os combatentes, quer as populações de ambos os
lados tornava a conquista/reconquista dos territórios umacto sacra-
lizado. Veja-se a lenda da batalha de S. Mamede, reforçando as prá-
ticas religiosas que, face à fragilidade e precariedade já antes refe-
ridas, a par dos surtos epidémicos de grande ferocidade, originaram
cultos religiosos singulares na Península Ibérica.
O homem medieval, perante a precariedade que o envolvia, «fome,
peste e guerra», desenvolveu umconceito apocalíptico de vida,onde
a morte e o julgamento de Deus estão sempre presente nos seus
actos quotidianos, relembrados continuamente pela Igreja e suas
instituições.
Procuraremos assim analisar as motivações da circulação das popu-
lações, como o faziam, e quais as estruturas de apoio existentes no
Portugal medievo, privilegiando, não as categorias sociais possiden-
tes, nobreza, ou as várias categorias do clero, mas os «vilãos»,
O
espaço português após o reconhecimento deD.AfonsoHenriques
como rei de Portugal, em 1143, não deixando de ser um territó-
rio instável pelas lutas constantes entreos guerreiros do Islãoeas popu-
lações cristãs, foi consolidando as infra-estruturas necessárias a um
reino independente, conquistando paulatinamente ao Al-Andaluz
os territórios a sul: Leiria - 1145, Lisboa e Santarém - 1147, Évora - 1165.
Também as tácticas militares e o espírito guerreiro dos primeiros reis
de Portugal, apesar dos auxílios externos de cruzados e ordens mili-
tares,não deixaramde ter importância na consolidação do País,cons-
truindo castelos emuralhas para defesa e protecção de bens e popu-
lações.
O territórioportuguês detinhaassimdois tipos degeografia social:uma
a norte, a chamada região entre Douro e Minho, com um grau de
estabilidade demográfica crescente, e posteriormente as Beiras e
principalmente a Estremadura que, por ter sido objecto de conquis-
tas e reconquistas constantes entre«Mouros»e cristãos,cujo saque
de populações fronteiriças era vulgar, dificultou a fixação de popu-
lações, que os nossos reis, através de doações de grandes espaços a
ordens militares, procuraram colmatar os Templários em Tomar, ou a
ordens regulares, a ordem de Cister, Alcobaça.
Ao longo do século XIII e XIV, já com a conquista definitiva do Algar-
ve em 1248, Portugal surge com um território muito desigual na sua
ocupação: o Norte e Centro muito populosos e férteis, apesar de
muito acidentados, cedo se autonomizaramem concelhos,que deti-
nham as suas autoridades civis e económicas; o Sul, fruto da recen-
te reconquista, despovoado e também menos fértil, foi mais sujeito
a pressões senhoriais,quer do clero,quer dos grandes senhores,uma
vez que o seu povoamento se tornou mais problemático com o recuo
muçulmano.
Fortemente condicionadas pelos sucessos militares da reconquista,
Itinerâncias e comunicações
no Portugal medieval
Júlia Saldanha
|
Licenciada em História Pela Universidade de Coimbra - Quadro Superior da FPC
SãoTiago combatendo os Mouros. Museu Nacional de Arte Antiga