Página 34 - Códice nº2, ano 2005

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me volume de cartas que diariamente circulavam pela corte entre os
altos dignitários e entre estes e toda a classe de entidades e pessoas
de dentro e fora do Reino».
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Não é nosso objectivo abordar, neste
momento,os conteúdos da correspondência administrativa nempro-
ceder à sua análise diplomática,perspectiva adoptada por este autor.
Pretendemos, no entanto, estabelecer a relação entre a criação
e expansão da rede de correios e os projectos políticos que visavam
a dominação de territórios.
De facto, a criação de correios organizados é um fenómeno intrinse-
camente ligado ao processo de construção dos Estados e Impérios
modernos bem como à consolidação de projectos de independência
de territórios sob dominação colonial,como se expressa nos exemplos
seguintes.
Quando,em 1505,Filipe I herdou o trono de Castela,nomeou Francisco
de Tassis como correio-mor da corte e encarregou-o de fazer chegar
a correspondência proveniente de várias cidades espanholas a Bru-
xelas num determinado número de dias. Esta rede foi ampliada no
tempo de CarlosV,monarca que encarregou a«empresa» italiana de
transportar missivas entre Castela e os espaços europeus com os
quais tinha relações mais estreitas, caso da Flandres, França,Alema-
A
s citações em epígrafe remetem-nos para a articulação existen-
te entre a implantação de serviços organizados de comunica-
ções postais e a problemática da estruturação dos Estados, tema
que nos ocupa neste artigo.
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As novas correntes da História do Estado tendem a afirmar que esta
configuração política só teve possibilidades de dominar eficazmente
o território quando se criaram as condições que permitiram resolver
alguns dosmaiores problemas da comunicaçãoàdistância,destacando
amelhoriadosmeios de transporte terrestre emarítimo,a implantação
do caminho de ferro e a difusão do telégrafo e do telefone. O estado
forte e centralizado oitocentista tem, no entanto, a sua génese nos
sistemas políticos anteriores,ainda que estes se regessempor matri-
zes culturais e práticas de exercício do poder diversas das que se vie-
ram a impor no século XIX.
Uma das fontes privilegiadas para o estudo dos processos de decisão
política e dosmecanismos de exercício do poder é a circulação das car-
tas. A este propósito escreve Pedro Luís Lorenzo Cadarso: «Durante
os séculos XVI e XVII a correspondência epistolar desempenhou um
papel essencial no funcionamento do Estado Absoluto, ao ponto de
que este resultaria inexplicável sem tomar em consideração o enor-
O sistema de comunicações
postais na idade moderna
e o processo de construção
do «Estado moderno»
Margarida Sobral Neto
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Professora da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra - Membro do Centro de História da Sociedade e da Cultura
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Se os campanários foram a caixa de ressonância através da qual se divulgaram algumas das grandes mensagens que interessava fazer públi-
cas, as necessidades de uma comunicação cada vez mais fluida entre a Coroa e os distintos órgãos de poder significaram a paulatina institu-
cionalização do Correio e dos serviços de postas como correia de transmissão dos assuntos de natureza reservada» (António Recuero)
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No plano da prática política, o aumento da acessibilidade territorial está intimamente ligado ao progresso da escrita e ao desenvolvimento
dos serviços de posta» (António Hespanha)
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L’hotel des postes, le timbrage”, 1880, acervo iconográfico da FPC.