
Nos últimos anos, o setor das telecomunicações em Portugal foi marcado por uma aceleração tecnológica significativa, destacando-se a expansão massiva da fibra ótica, o lançamento e rápida disseminação do 5G e a consolidação de redes móveis de alta capacidade.
A par destes desenvolvimentos, o país reforçou o seu papel estratégico na conectividade global, apoiado por investimentos em cabos submarinos, centros de dados e infraestruturas digitais emergentes, num contexto em que as telecomunicações se afirmam como alicerce da economia digital e da inovação tecnológica.
Mas para que tudo isto fosse possível, o país teve de investir ao longo de várias décadas na formação de técnicos e engenheiros, na eletrificação do país e na criação de uma rede de comunicações.
Nas primeiras décadas do séc. XIX a indústria em Portugal era arcaica, com um nível de mecanização muito baixo e mão de obra não qualificada. Só após as guerras liberais, em 1837, o governo de Passos Manuel cria a Academia Politécnica do Porto, a primeira escola não militar de engenharia no país, destinada ao ensino de ciências industriais e à formação de engenheiros civis.
Em 1852, o movimento regenerador, impulsionado por Fontes Pereira de Melo, como Ministro das Obras Públicas, deu continuidade a esse caminho focado no desenvolvimento industrial. Era necessário melhorar as infraestruturas, nomeadamente a construção de estradas e caminhos-de-ferro, e implementar a rede telegráfica.
No mesmo ano, foram criados o Instituto Industrial de Lisboa e a Escola Industrial do Porto. Com três graus da instrução, desenvolviam trabalho nas oficinas, e tinham uma biblioteca e um Museu da Indústria, que funcionava como uma montra de tecnologia e novas patentes.
O ensino tradicional teórico passava agora a prático, com oficinas mecânicas, fundições, laboratórios de química e gabinetes de física, que preparavam operários qualificados, mestres de oficinas, diretores de indústrias e condutores de obras públicas.
No início da telegrafia, as primeiras redes de comunicação estavam sob a alçada do Exército. Grande parte dos telegrafistas eram militares. Temos o exemplo de Cristiano Augusto Bramão, que entrou para o 2º Regimento de Artilharia, e pouco depois foi transferido para o Corpo Telegráfico. Foi telegrafista e em 1879 inventou o “Telefone Bramão”.
A instalação do Instituto Industrial em Lisboa foi possível graças à construção de um cais geral e aterro entre a Ribeira Nova e a Praia de Santos, designado de aterro da Boa Vista. O seu diretor Vitorino Damásio foi encarregue de dirigir as obras do aterro. Entre 1858 e 1859 foram construídos, até à Praia de Santos, 700 metros de paredão para desembarque.
Em 1911, após a implantação da República, o Ministro do Fomento Brito Camacho convidou Alfredo Bensaúde, com sólidos estudos feitos na Alemanha, para reorganizar o futuro da engenharia. Foi ele que propôs a separação do Instituto Industrial em duas escolas superiores, o Instituto Superior de Comércio (o atual ISEG) e o Instituto Superior Técnico (IST).
Em 1927, Duarte Pacheco, assumiu a direção do instituto, com apenas 27 anos. Introduziu metodologias modernas, trabalho intensivo em laboratório e novos cursos de engenharia. Planeou e lutou pela construção de um campus universitário, o que veio a acontecer em 1940.
O processo de industrialização e modernização de Portugal foi deste modo ganhando dinâmica. A construção de barragens veio permitir uma maior eletrificação nacional, e energia para o trabalho das fábricas.
Em 1950 foi constituído o GECA, Grupo de Estudos de Comutação Automática, uma pequena estrutura dos CTT no domínio da automatização de estações telefónicas. Com ele iniciou-se o conceito de linha partilhada, ou seja, servir vários telefones em simultâneo; e progressivamente a criação de uma indústria capaz de fabricar pequenas e grandes estações de comutação.
Posteriormente o GECA passou a designar-se por CET – Centro de Estudos de Telecomunicações, sob a dependência da Direção-Geral de Telecomunicações dos CTT, para apoiar a investigação, conceção, desenvolvimento, e a modernização do Sistema Nacional de Telecomunicações – nos sistemas de comutação e de transmissão.
Só depois de 1974 a eletrificação do país ficou completa e com ela intensifica-se o processo de construção das redes de telecomunicações. Já na década de noventa, o CET deu lugar à constituição da PT Inovação. Criada em 1999, pela Portugal Telecom, a PT Inovação concentrou em Aveiro o conhecimento científico e tecnológico acumulado ao longo de décadas no setor. A partir deste polo emergiram soluções pioneiras nas áreas das redes inteligentes, serviços móveis e sistemas pré‑pagos, contribuindo decisivamente para a digitalização da rede, a massificação do telemóvel e a afirmação internacional da engenharia portuguesa no domínio das telecomunicações.
A História do desenvolvimento tecnológico e industrial do país é marcada pela criação do Instituto Industrial, cujo impacto foi tão grande que a rua que lhe dava acesso acabou por herdar o seu nome. Anos mais tarde, a mesma morada pertenceria à Administração dos Correios Telégrafos e Telefones, depois à Central Telex de Lisboa, em 1994 a EP Telecom de Portugal comprou o edifício. Em 1997, inaugurava-se a sede da Fundação Portuguesa das Comunicações e instala-se o Museu das Comunicações.
Para saber mais sobre a História das Comunicações em Portugal e ver o telefone Bramão, visite a exposição “Vencer a Distância – Cinco Séculos de Comunicações em Portugal”.
Fontes:
“A Sede da Fundação: de Fábrica a Museu”, Revista Códice, Número Um, 1998.
“História das Telecomunicações em Portugal”, de Maria Fernanda Rollo.
“Centro de Estudos de Telecomunicações, 50 anos ao serviço da I&D”, de Rogério Santos.
Do Ensino Industrial ao Ensino da Engenharia
Reformas e Bases da Educação em Portugal (1835-2009)
Documentário Engenho e Obra – Engenharia em Portugal no Século XX