

Carta vencedora do Concurso “A Melhor Carta” 2026, de Samily Santana:
Segunda-feira, 13 de maio de 2024
Querida Mimi,
Deixa-me contar-te como andam as coisas lá em casa, uma vez que mudaram muito neste último ano.
Assim que chegam da escola, os meus irmãos trancam-se no quarto e vão jogar com os amigos. Eles nem sequer descem para jantar. O meu pai come em frente à televisão a assistir à sua série policial “imperdível” e a minha mãe anda de um lado para o outro a resolver os problemas do trabalho pelo telefone. Eu faço a minha refeição sozinha, na mesa da cozinha, quase sempre a pensar em ti ou nos trabalhos que tenho de fazer. Assim que eu te perdi, a minha família tornou-se mais atenciosa, mas, com o passar do tempo, tudo voltou a ser como era antes.
Lembro-me de ti em todos os lugares por onde passo.
Hoje fiquei sozinha na escola durante todos os intervalos, uma vez que as nossas amigas estavam preocupadas em gravar uma nova dancinha viral para colocarem nas suas redes sociais. Elas dizem que a minha decisão de não participar mais neste tipo de brincadeira foi radical, mas depois de tudo o que aconteceu eu não poderia ter tomado outra atitude. Por onde passo, vejo o efeito das novas tecnologias: pessoas nos seus telemóveis, jovens a comentar sobre as novas modinhas e tendências… já é impensável viver sem elas no nosso mundo atual, mas sei que, por causa disso, muitas pessoas estão desatentas ao que acontece ao seu redor, na vida real.
Sabes muito bem que eu fui uma delas, minha querida Mimi, e por isso não notei o que estava a acontecer contigo. Se eu tivesse ouvido os teus pedidos para termos conversas mais profundas ao invés de debatermos sobre esta ou aquela trend, se eu tivesse olhado com mais atenção para os teus olhos que passaram tão rapidamente de alegres para dolentes, se eu tivesse sido mais sensível aos teus pedidos de socorro… tu nunca terias feito aquilo. Nós estávamos próximas fisicamente, mas eu não estava realmente presente.
Lembro-me de quando me mostravas fotos de modelos e perguntavas se estavas tão bonita quanto elas, de quando te lamentavas por não seres tão feliz e popular como esta ou aquela rapariga nas redes sociais e de quando ficavas ansiosa para saber se aquele miúdo de quem tu gostavas havia gostado das tuas postagens ou não. Eu não sabia, Mimi, que tudo isto só contribuía para que te sentisses cada vez mais infeliz contigo mesma e muito menos que as mesmas redes sociais que unem os corações que se encontram separados por milhares de quilómetros de distância seriam o motivo da separação dos nossos, para sempre.
Já faz um ano desde então, mas a dor permanece tão dilacerante como antes. Sei que não posso voltar atrás e mudar o que aconteceu, mas posso agir de forma diferente em relação ao futuro. Por isso, decidi estar mais atenta aos que estão à minha volta. Não quero relacionamentos automáticos, como os que acontecem lá em casa, onde estamos demasiado ocupados com os nossos telemóveis para repararmos nas pessoas: quero estar realmente presente e livrar-me das distrações.
Ao invés de debater sobre estas novas tendências supérfluas, tenho tentado falar sobre assuntos mais sérios com as nossas amigas como, por exemplo, sobre a comparação, as inseguranças, a dor da tua perda… porque eu sei que nenhuma nova invenção ou tecnologia pode substituir o efeito de um ombro e de um abraço amigo. Também tenho ido tomar café com a tua irmã com regularidade. Ela ficou muito abalada depois da tua partida e as nossas saídas têm-lhe feito bem. Umas vezes rimos, noutras choramos… mas o mais importante é que sentimos e estamos a passar pelo mesmo, o que, de certa forma, é um consolo para ambas as partes.
Eu só peço que tu me perdoes por não ter feito tudo isto antes; Mimi, perdoa-me por não ter sido a amiga que deverias ter tido. Perdoa-me, porque eu poderia ter evitado tudo isso.
Prometo que, se houver uma vida para além desta, continuaremos a ser amigas e serei o mais presente possível. Espero que, embora seja muito improvável, tu possas ler, daí do Céu, esta carta que escrevo e olhar por mim com esses olhos tão afáveis que só tu tens.
Um abraço da tua, sempre tua,
Samily.
Leia aqui as seis cartas vencedoras do Concurso “A Melhor carta” 2026, escalões 9-11 e 12-15 anos.