1858, o primeiro passo para a Internet Global

Telégrafo Bramão, séc. XIX

 

A data 16 de agosto de 1858 marca a primeira ligação por Cabo Telegráfico Transatlântico.

Em meados do séc. XIX, as frotas marítimas eram o único meio de transporte disponível para as comunicações transatlânticas. Os navios a carvão demoravam entre duas a três semanas na travessia do Atlântico.

Enquanto o telégrafo elétrico e o comboio iam vencendo distâncias em terra firme, a separação oceânica mantinha o grande entrave para o progresso económico e político. Os governos, os diplomatas e os homens de negócios desesperavam com o tempo de espera da correspondência.

Em 1842 Samuel Morse iniciava uma série de experiências, acreditando que era possível uma comunicação telegráfica através do Atlântico. Um fio condutor revestido de borracha, metido no interior de um tubo de chumbo era colocado na água do porto de Nova Iorque para os primeiros ensaios da transmissão de sinais elétricos.  Com o contacto continuado na água a borracha ia-se deteriorando até ao ponto de deixar de funcionar como isolador.

Entretanto, o físico Michael Faraday descobriu que a guta-percha – látex natural extraído de árvores tropicais apresentado pelo engenheiro português José de Almeida à Royal Asiatic Society em Londres – garantia o papel de isolador elétrico e resolvia o problema do isolamento de fios condutores de eletricidade.

A Submarine Telegraph Co começava a instalar os primeiros cabos submarinos, em 1850, para ligar Inglaterra (Dover) a França (Calais). No entanto, os cabos resistiam muito pouco tempo, eram acidentalmente danificados por pescadores ou outro incidente.

Em 1852 era possível fazer comunicações telegráficas regulares entre Londres e Paris.

Nos anos seguintes as experiências prosseguiram e os cabos submarinos tornaram-se uma infraestrutura de telecomunicações cada vez mais fiável nas interligações das comunicações globais.

A 16 de agosto de 1858 procedeu-se à primeira transmissão telegráfica através de cabo transatlântico entre Inglaterra e os Estados (Terra Nova). A transmissão da mensagem entre a Rainha Vitória e o presidente dos Estados Unidos demorou 17h40, cada letra demorava dois minutos a ser transmitida. Um semanário americano anunciava “O cabo telegráfico é um completo triunfo. As mensagens circulam livremente e não existem dúvidas de que brevemente se poderá aumentar a velocidade das transmissões”.

Em Portugal começavam a surgir propostas de companhias internacionais para a amarração de cabos em território nacional. A situação geoestratégica era muito apetecível.

O navio Great Eastern lançou em 1866 um novo cabo transatlântico, com melhor isolamento, maior blindagem, e uma velocidade de comunicação 80 vezes superior à de 1858, conseguindo transmitir oito palavras por minuto. Pela primeira vez a ligação entre os continentes foi eficaz e duradoura.

Em abril de 1870 Portugal assinava contrato com a Falmouth-Gibraltar e a companhia britânica Malta Telegraph Company para o lançamento do primeiro cabo telegráfico submarino, que ligava Portugal a Inglaterra e a Gibraltar. A 8 de junho, o rei D. Luís I recebia uma mensagem de felicitações da Rainha Vitória, de Inglaterra.

Dois anos mais tarde foi a vez de fazer a ligação entre a Madeira e o Brasil, passando por Cabo-Verde. Sucederam-se muitas outras ligações marítimas.

No início do século XX, as comunicações internacionais telegráficas por cabos submarinos passaram a ter um concorrente de peso, a telegrafia sem fios e as comunicações telefónicas via rádio. Os cabos telegráficos submarinos foram então sendo substituídos pelos cabos coaxiais.

Ao longo de mais de 150 anos a União Internacional das Telecomunicações tem contribuído para o desenvolvimento e aperfeiçoamento da tecnologia dos cabos submarinos, e acompanhando as inovações e os desafios do sector das TIC.

O futuro das comunicações continuará, seguramente, a passar pelo fundo do mar onde, de forma discreta e insuspeita para a maior parte das populações, os cabos submarinos de fibra ótica asseguram a quase totalidade das transmissões globais.

Para saber mais sobre a evolução desta tecnologia visite a exposição “Cabos Submarinos“.

Fontes utilizadas:

As Comunicações na Idade Contemporânea, coordenação de João Confraria

Cronologia da História do Cabo Submarino em Portugal, de José Vilela

National Geographic