Page 91 - Comunicar na Republica

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Ditadura Militar e Estado Novo – Liberdade adiada
muitos dos excelentes literatos que vivenciaram a trá-
gica apoteose europeia da guerra de 1939-1945.
Em meados da década de 30, surge em Portugal o
neo-realismo. O neo-realismo é uma corrente que de-
fende que a criação artística deve tratar assuntos re-
lacionados com o condicionalismo socioeconómico
dos povos e analisa a luta de classes, os problemas do
quotidiano, visando, na linha ideológica do marxis-
mo, contribuir para o desaparecimento da exploração
do homem pelo homem.
Coimbra, nesse tempo, abria as portas da Univer-
sidade aos estudantes pequeno-burgueses, alguns
oriundos de meios humildes. Na ânsia de combater
a opressão, inerente a um regime de ditadura, recria-
ram o combativismo da Geração de 70, dos arautos
da I República e dos membros da
Seara Nova
. Ouviam
com sofreguidão a BBC e a Rádio Moscovo, folhea-
vam revistas estrangeiras e desencadeavam movi-
mentos cívicos e estudantis, de imediato reprimidos.
Porém, bem depressa, os jovens neo-realistas portu-
gueses contestaram o socialismo utópico da Geração
de 70 ou qualquer tipo de humanitarismo laico, incli-
nando-se para o marxismo socialista. O alvo dos seus
ataques foram os escritores da
Presença
, que estavam
divorciados dos temas políticos e sociais. Alves Re-
dol, Gomes Ferreira, Mando Martins, António Ramos
de Almeida, Afonso Ribeiro, Álvaro Cunhal e Mário
Dionísio que escreviam nas revistas
Sol Nascente
,
O Diabo
,
Altitude
,
Gleba
,
Ágora
,
Seara Nova
,
Gládio
, etc.
são os pioneiros deste movimento, chegando mesmo
a advogar a categoria de «documento» para o livro
neo-realista.
Como a censura política, ciosa e atenta, obstava à
divulgação do neo-realismo através de informação
periódica, os neo-realistas optaram pela obra literá-
ria: poesia, conto, novela e romance. A publicação do
romance de Alves Redol,
Gaibéus
, em dezembro de
1939, marca o início desta escola em Portugal.
Nos anos 50, por altura da chamada Guerra Fria, o
neo-realismo foi vítima de convulsões internas que o
debilitaram. Então, muitos destes escritores evoluem
para o existencialismo, enquanto outros tentam o
imaginismo poético e o sobrerrealismo.
No campo da literatura, o início da década de 30 é
marcado pela ação do Secretariado de Propaganda
Nacional e pela censura.
O Estado Novo, promovendo a «política do espírito»,
cria a chamada literatura do regime que exalta o ru-
ralismo, as tradições religiosas, os costumes e a gran-
diosidade histórica do País.
Apesar desta tomada de posição, um grupo de es-
tudantes lançou em Coimbra a revista
Presença
, a 10
de março de 1927, com o subcabeçalho que indicava
tratar-se de uma «Folha de Arte e Crítica». Os seus di-
retores e editores eram Branquinho da Fonseca, João
Gaspar Simões e José Régio. A revista foi saindo com
maior ou menor periodicidade até fevereiro de 1940.
Ao longo de treze anos foram publicados 56 números.
José Régio apresentou, no primeiro número da revis-
ta, num artigo intitulado «Literatura Viva», o progra-
ma de ação. Nasceram as polémicas sobre «o que é
ou não original» e começaram as deserções. Miguel
Torga abandonou o movimento em 1930. Este mo-
vimento teve um papel extraordinário, pois, a um só
tempo, redescobriu o
Orpheu
e tornou-o conhecido.
Embora menos agressivo que o
Orpheu
, controlou
os excessos deste com um papel pedagógico muito
importante. Os presencistas, defensores da literatura
viva, lutaram contra o academismo e a rotina, pro-
movendo a crítica livre e ousada, o primado do in-
dividual sobre o coletivo e o primado do psicológico
sobre o social.
O movimento presencista alheou a poesia de toda a
ação exterior, principalmente política, e, no sentido
oposto do nacionalismo, da «Renascença Portugue-
sa», da
Seara Nova
e do integralismo, convergiu para
o interior do homem, para a introspeção, para o psi-
cologismo.
Enveredando por um psicologismo intelectualista,
inf luenciado por Freud e por Bergson, os poetas do
segundo modernismo cedo começaram a manifestar-
-se com excessos de individualismo e independência,
criando divergências conducentes a deserções.
A
Presença
esteve aberta a inúmeros colaboradores,
inclusive aos neo-realistas. Mais do que uma revista,
foi um grupo e o símbolo de uma época, que reuniu
A literatura no Estado Novo
Margarida Mouta
FPC