Page 63 - Comunicar na Republica

Basic HTML Version

63
I República – Liberdade em ação
«Vibra a linha inquieta em torno deles, crepitam-lhes
aos ouvidos as espingardas e as Lewis, soam as de-
tonações abafadas das pistolas
very-lights
, estrugem
os morteiros inimigos que abalam a toca e a põem
de esguelha muita vez. E o pobre alicate enclausura-
do, atento à receção, pronto à transmissão... ... fica ali
horas, enquanto a chuva lhe alaga o esconderijo.»
1
Estas vívidas palavras descrevem o quotidiano do
pessoal das transmissões telegráficas e telefónicas
no teatro de guerra. Além destes meios, as comuni-
cações de cariz estritamente militar serviam-se tam-
bém dos sinais de
very-lights
ou ainda dos pombos-
-correios quando todos os outros recursos falhavam.
De Joaquim dos Santos Andrade, poeta popular al-
garvio, prisioneiro depois do desastre de la Lys e so-
brevivente da guerra, reproduzimos a evocação dos
sentimentos de um soldado perante a incerteza do
seu futuro:
Mas sempre há uma esperança
É nessa crença que eu vivo
Porque não vejo nenhum motivo
De morrer assim criança,
A saudade é uma lança
Que risca o espaço de prata
Oh! Que vida tão ingrata
Estou próximo da sepultura
E vivendo na amargura
Vou responder à tua carta!...
2
1. BRUN, André –
A Malta das Trincheiras: Migalhas da Grande
Guerra. 1917-1918
. Lisboa: Guimarães, 1919, pp. 93-94.
2. TELO, António – «A República e as Forças Armadas
(cont.)»
in História de Portugal
(vol. XV), dirigida por João Me-
dina. Amadora: Ediclube, 2004, p. 650.
O Corpo Expedicionário Português (CEP) foi o nome
atribuído ao conjunto de unidades militares com in-
tervenção no teatro de operações europeu durante a
Grande Guerra. A Portugal coube, além do esforço
bélico nas planícies da Flandres, o envio de avulta-
dos contingentes para África – Angola e, sobretudo,
Moçambique – mesmo antes da declaração de guerra
pela Alemanha em março de 1916.
Foram mobilizados cerca de 57 000 portugueses, em
levas sucessivas, que ocuparam a zona de Aire-sur-
-la-Lys, sob o comando geral inglês. Guerra muito
dura marcada não tanto pelos confrontos, que eram
sobretudo de artilharia, mas sim pelo afundamento
nas trincheiras, no meio da lama, do nevoeiro, dos
gazes sufocantes, de clima inclemente que destruía o
físico e o moral das tropas.
Mal preparados do ponto de vista militar e físico, mal
saídos dos campos portugueses para o desconhecido,
enfrentando a morte ou a doença (no total contaram-
-se 1938 mortos, 5198 feridos e 6969 prisioneiros ou
desaparecidos) era vital para estes contingentes a
existência de um serviço de correio.
Assim o entenderam as autoridades militares que
promoveram a criação do Serviço Postal de Campa-
nha (SPC) encarregado de gerir a correspondência re-
cebida e enviada pelos militares do CEP, tanto oficial
como particular. Obedecendo em termos de discipli-
na militar ao comando britânico e nos aspetos técni-
cos à Administração-geral dos Correios e Telégrafos,
teve como sede instalações em Boulogne-sur-Mer
que serviu de centro nodal para o envio e receção
das malas postais que seguiam através dos serviços
da Administração Francesa de Correios e Telégrafos,
por via terrestre em trânsito por Espanha. Compor-
tava, no total, vinte e duas estações postais e movi-
mentou uns impressionantes 33 milhões de objetos
postais, entre correspondências e encomendas e 98
500 malas entre 1917 e 1918.
A Grande Guerra (1914-1918).
O SPC do Corpo Expedicionário
Português e as comunicações
militares
Isabel Varão
Ao lado: Pormenor do desenho a carvão executado no local dos confrontos de La Lys por Humberto da Cunha Serrão
(arquivo iconográfico da FPC).
FPC