Page 143 - Comunicar na Republica

Basic HTML Version

143
Da Revolução de Abril à Democracia
Portugal seria grande e Pessoa já fora o seu arauto, o
seu «profeta» ao escrever: «Quando virás, ó Encober-
to,/Sonho das eras português,/Tornar-me mais que o
sopro incerto/De um grande anseio que Deus fez?»
(Fernando Pessoa,
Mensagem
).
Em 1976, surgem nomes como Jorge de Sena, Eugé-
nio de Andrade, Maria Velho da Costa, José Gomes
Ferreira, Ruy Belo, Manuel Alegre, Luís de Sttau Mon-
teiro, Vasco Pulido Valente, Sophia de Mello Breyner,
Miguel Torga, Vergílio Ferreira, David Mourão Fer-
reira que, entre outros, marcam presença no ensaio,
na narrativa e na poesia. Novos nomes surgem na
ficção.
Em 1984, Eduardo Lourenço, fazendo o balanço da
literatura em
10 Anos de Democracia Literária
, refere
que surgiram «novelas do mundo imperial, emigrante
e de libertação» e outras, conduzidas por um novo
psicologismo e existencialismo, na invenção ou (re)
criação de «outra maneira de nós mesmos». Lídia Jor-
ge, António Lobo Antunes, José Saramago, António
Ramos Rosa, Sttau Monteiro, Dinis Machado e Nuno
Júdice são alguns daqueles que, em poesia, em prosa
ou em género dramático, nos possibilitam a fruição
das palavras, do sentido das palavras e das suas mul-
ti-significâncias e significações, isto é, transportam-
-nos para a descodificação e fruição do levantar das
O liberalismo conservador do Estado Novo, que tor-
nou Portugal, detentor de colónias em África e na
Ásia, um dos países mais atrasados da Europa, ter-
minou com a «Revolução dos Cravos», em 25 de abril
de 1974.
Os salazaristas, a um só tempo, deixaram de contro-
lar o governo português e assistiram a uma onda de
libertação nacional com a descolonização.
No que respeita à literatura, com o «25 de Abril»
desencadeia-se uma enorme procura de livros que a
censura tinha apreendido. Há uma crescente necessi-
dade de aprender sobretudo temas políticos e ligados
às ciências sociais. Mas o pós-1974 também trouxe o
despertar do romance português.
Nos anos seguintes, vários escritores desenham um
novo rosto da literatura portuguesa: José Saramago,
que, em 1947, lançara o livro
Terra do Pecado
, rea-
parece em 1977 com
Manual de Pintura e Caligrafia
.
De acordo com as palavras de Eduardo Lourenço, os
acontecimentos, inerentes e consequentes ao «25 de
Abril», convergiram para o desejo de «desenhar ou-
tro mapa» e, através das suas coordenadas, descobrir
«em que País estávamos, em que País nos tínhamos
tornado com a perda desse império» que nós pensá-
vamos que fazia parte integrante da história portu-
guesa, desde há séculos, e qual a missão de Portugal.
Liberdade (re)construída.
A literatura na Democracia
Margarida Mouta
FPC