Page 139 - Comunicar na Republica

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Ditadura Militar e Estado Novo – Liberdade adiada
Entre os elementos de coesão avulta, naturalmente,
a rede de comunicações, a começar pelo telégrafo,
mas que foi sendo paulatinamente completada com
os caminhos-de-ferro, o estabelecimento de portos
e faróis, o desenvolvimento do transporte marítimo,
o crescimento da rede postal a cargo das «Compa-
nhias» e, muito secundariamente, uma incipiente
rede de estradas.
A TSF, cujo surgimento acompanhou a transição de
regime, marca a evolução do período republicano
cada vez com maior acuidade. As sucessivas visitas
de Marconi a Portugal, as longas negociações entre
os governos republicanos e a companhia britânica
Marconi’s Wireless Telegraph Company Ltd vêm a
culminar na criação da Companhia Portuguesa Rá-
dio Marconi em 18 de julho de 1925, de capitais in-
gleses.
Até ao advento da Ditadura Militar era esta a situa-
ção. Logo em dezembro de 1926 a nova companhia
inaugura os primeiros circuitos e alguns meses depois
inicia a ligação a Cabo Verde, Angola e Moçambique.
A rede de radiocomunicações constitui, a partir de
então, um eixo estratégico de ligação aos territórios
coloniais e ao resto do mundo, procurando uma alter-
nativa séria ao cabo submarino e, até mesmo, a sua
substituição. Continuará a sua evolução neste mesmo
sentido pois em 29 de setembro de 1929, aquando da
sua última presença em Portugal, Guglielmo Marco-
ni irá às recém-construídas instalações de Alfragide
onde se operavam as transmissões para as colónias
africanas de Portugal.
Durante todo o período do Estado Novo as radioco-
municações estarão presentes como meio fundamen-
tal de ligação dos territórios sob administração por-
tuguesa, quer à metrópole quer ao resto do mundo,
ainda que sob as mesmas condicionantes de censura
e vigilância que marcaram este período da história
do País.
O conjunto das ligações telegráficas internacionais
dos territórios coloniais de Portugal conheceu um
surto particularmente expressivo nas últimas déca-
das do século XIX.
Com início em 1870, com a ligação por cabo submari-
no entre Lisboa e Goa, via Bombaim (atual Mumbai),
estava assegurada no final do século a cobertura do
império português, à exceção de Timor. Entre Lisboa
e Cabo Verde (S. Vicente) em 1874, entre a capital e
Moçambique em 1880, entre a metrópole e Macau
em 1884 e, de 1885 a 1886, com Guiné, S. Tomé e
Angola, a tecnologia dos cabos submarinos permitiu
uma comunicação célere e, por consequência, uma
maior ligação à administração central e à vida econó-
mica do próprio País.
Entretanto, o paradigma do colonialismo a nível eu-
ropeu tinha-se alterado substancialmente com as am-
bições mais ou menos explícitas de uma Inglaterra ou
de uma Alemanha sobre os grandes territórios nomi-
nalmente portugueses, uma vez que a nossa presença
apenas era sensível nas zonas costeiras permane-
cendo os territórios ainda, em grande parte, pratica-
mente desocupados e inexplorados. A transição para
«impérios formais», a «corrida à África» por parte de
potências como a Alemanha, a Bélgica, a Itália, a pró-
pria França, obrigam Portugal a um esforço acrescido
em meios humanos e materiais para defesa dos seus
«direitos históricos», o que assumirá a sua expressão
mais cabal no período republicano com os confron-
tos com o expansionismo alemão que tiveram lugar
em Angola e, principalmente, em Moçambique, ainda
antes da nossa entrada na Grande Guerra. Em 1918,
muito graças a uma política arguta e consequente
desenvolvida, em particular, por Andrade Corvo e
António Enes, em linha, aliás, com o trabalho diplo-
mático do fim da Monarquia e à nossa participação
no conf lito, o império português encontrava-se con-
solidado na cena internacional.
O império colonial e as
telecomunicações ligando à
metrópole e ao resto do mundo
Isabel Varão
Ao lado: Estações de correios e telecomunicações nas ex-colónias portuguesas (arquivo iconográfico da FPC).
FPC