Página 28 - Códice nº6, ano 2009

Imagem iconográfica da República.
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republicanos,que gritavama plenos pulmões pelas ruas«Vivaa Repú-
blica!» – e não era certamente uma alusão à República francesa.
O ano de 1906 foi de mau agoiro para a Monarquia: em Abril tomava
posse o efémero e instável governo regenerador de Hintze Ribeiro
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,
para no mês seguinte se revoltarem as guarnições de dois navios de
guerra surtos noTejo:os cruzadores
D. Carlos
e
Vasco da Gama
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.
Depois
João Franco formounovo governo,que iria derivar paraumcontestado
processo ditatorial, enquanto a rainha D. Amélia era humilhada com
uma grande vaia no Campo Pequeno
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.
Reflexos evidentes da situa-
ção: nas eleições de Agosto, foram eleitos quatro deputados repu-
blicanos para o Parlamento,onde pouco depois rebentaria o«escân-
dalo dos adiantamentos»à casa real para cobrir as dívidas que entre-
tanto se tinham acumulado, devido aos gastos exagerados de
D. Carlos e dos seus familiares.
O ano seguinte não foi melhor: João Franco perdeu o apoio parla-
mentar, e logo dissolveu o Parlamento sem marcação de novas elei-
ções, tendo entrado em «ditadura administrativa». Rebentam gre-
ves por todo o País,quer ao nível estudantil,a partir de Coimbra,quer
ao nível do operariado descontente.Os republicanos aproveitameste
clima que lhes era favorável e levam a cabo comícios de Norte a Sul,
enquanto certos núcleos favoráveis à República se organizammelhor:
Magalhães Lima é eleito grão-mestre do Grande Oriente Lusitano
Unido e Luz de Almeida reorganiza a Carbonária Portuguesa,enquan-
to monárquicos progressistas dissidentes formam com republicanos
um comité revolucionário em que participam o visconde de Ribeira
Brava, José de Alpoim, Afonso Costa e Alexandre Braga
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.
E mais: dois ilustres pares do Reino (Anselmo Braamcamp Freire e
Augusto José da Cunha,ex-ministro,presidente da Câmara dos Pares
e antigo perceptor de D. Carlos) dirigem-se, com a premeditada e
desejada visibilidade desse acto, ao Centro Republicano situado no
A
implantação da República emPortugal, em 5 de Outubro de 1910,
foi apenas o culminar de um lento, sinuoso e por vezes ambí-
guo processo de vários anos
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.
Esse processo pode ser detectado
desde princípios do século XX, embora certos factos bem conheci-
dos datem do século XIX, avultando de entre eles a revolta repu-
blicana de 31 de Janeiro de 1891, acicatada e liderada por João Cha-
gas, Sampaio Bruno,Alves daVeiga e Santos Cardoso
2
.
Ainda em finais
do século XIX Heliodoro Salgado impulsionou as actividades da Car-
bonária Lusitana
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,
uma organização paralela da Maçonaria, de
tipo secreto e belicoso, adversa ao clericalismo, e que viria a desem-
penhar um papel crucial na implantação da República. Note-se
entretanto que o século terminaria com alguma frustração para os
opositores da Monarquia, pois nas eleições de Novembro de 1900
o Partido Republicano, fundado em 1876, não logrou eleger nenhum
deputado.
Em 1901, ano damorte da rainha Victoria da Grã-Bretanha e da subi-
da ao trono de Eduardo VII (que três anos depois visitaria Portugal e
daria o seu nome ao famoso parque lisboeta), João Franco
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deixa o
Partido Regenerador e constitui oCentro Regenerador Liberal.Nas elei-
ções deOutubro,os republicanos não conseguirameleger deputados,
como já tinha ocorrido no ano anterior.
AoposiçãoàMonarquia foi crescendonosmeios urbanos eacadémicos,
com greves e conspirações, mas sem qualquer reflexo no processo
eleitoral: a verdade é que nas eleições de Junho de 1904 e nas de
Fevereiro de 1905 os republicanos não elegemqualquer deputado. E,
mais do que no movimento republicano, era no próprio seio das for-
ças monárquicas que iam surgindo os mais proeminentes contesta-
tários: é o caso da dissidência progressista de José de Alpoim, pre-
textando a«questão dos tabacos»
5
.
EmOutubro de 1905 a visita do
presidente francês Émile Loubet a Portugal foi aproveitada pelos
Comunicabilidades e empatias
no advento da República
Luís Manuel de Araújo
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F
aculdade de Letras da Universidade de Lisboa