Página 4 - Códice nº4, ano 2007

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cariedade explica situações diversas algumas delas caricatas.
Alémdas estradas,qualquer espaço frequentado assiduamente pas-
sava a constituir um caminho, que poderia a qualquer momento dei-
xar de o ser. Como não estávamos em presença de vias pavimenta-
das, chuvas torrenciais e quedas de neve facilmente inutilizavam os
caminhos.Aaudáciadequalquer pessoapodia igualmente transformar
um caminho numa horta. Assimaconteceu em 1538, quando um vizi-
nho deTor (Querença, Loulé) agricultou uma estrada que ligava Loulé
ao resto do Reino
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.
Por outro lado, em 1574, os moradores de Estom-
bar (Lagoa) queixaram-se aD. Sebastião de que todos os anos tinham
necessidade de fazer «corregimentos» nos caminhos
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.
Quem viajava e descrevia as peripécias ocorridas durante os percur-
sos efectuados, com frequência notava os maus caminhos e as difi-
culdades sentidas com alguma assiduidade. Nos anos 30 do século
XVI, frei Claude de Bronseval, acolitando D. Edme de Saulieu, percor-
reu o Reino e pôde pronunciar-se, com conhecimento de causa, quei-
xando-se com frequência
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.
Em 1609, o chantre de Évora, Manuel
Severimde Faria,deu conta das dificuldades que conhecera emdiver-
sos pontos do Reino ao escrever: «de Tomar a Ceras há duas léguas
de ruins caminhos e pedregosos […]. De Alvaiázere a Ancião há duas
léguas de trabalhosíssimo caminho por ser tudo rochedo e pedra
viva que nema pé nema cavalo se pode andar senão comgrande difi-
culdade […]. De Barca a Moncorvo há
uma légua de áspero e trabalhoso cami-
nho por cima de picos de montes mui
estreitos e perigosos de modo que em
muitas partes é necessário ir a pé».
Menos frequentes foram observações
como:«DeTorre deMoncorvoa Fornos há
quatro léguas de bom caminho, posto
N
a exposição a desenvolver, iremos abordar a vertente da comu-
nicação física, isto é, a que permite a união entre diversas pes-
soas e coisas distanciadas no espaço
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,
no território continental por-
tuguês, durante a Época Moderna. Este tipo de comunicações foi
marcado por alguma incapacidade de desenvolvimento acelerado, o
que, em alguns momentos, foi apresentado como causa para um
certo marasmo do comércio interno e do próprio País.
1.
Comunicação física
1.1.
Bases da comunicação
1.1.1.
Rede viária
A rede viária portuguesa da Época Moderna foi maioritariamente
herdeira do traçado das estradas romanas e muçulmanas e esteve
directamente relacionada comadensidadepopulacional.Istoé,anorte
doTejo,as estradas concentravam-se no litoral,acompanhando a rede
fluvial navegável, ao mesmo tempo que se iam diluindo em direcção
às zonas montanhosas do interior
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Entre Douro eMinho, a região de
Coimbra,uma boa parte da Estremadura,áreas da Beira Interior e do
Alto Alentejo eram as zonas mais favorecidas
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Não obstante algumas áreas terem uma fraca rede viária, todo o
Reino possuía estradas e caminhos por onde se circulava a pé ou no
dorso de umamontada.Mais difícil se apresentou o quadro como apa-
recimento das primeiras viaturas. Efec-
tivamente, importa lembrar quemuitas
vezes os caminhos eram feitos enquan-
to se ia andando, o que levou García de
Cortázar a defender que as estradas
eram essencialmente antropológicas,
isto é, à medida do homem e à medida
que o homem as transitava
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Esta pre-
Viajar na Época Moderna
Isabel M. R. Mendes Drumond Braga
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Professora da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa
Caminhantes, século XVI.
Vista de Lisboa, da autoria de Domingos Vieira Serrão e Simão Rodrigues (c. 1620), onde sobressaem o rio Tejo e as embarcações.