Página 28 - Códice nº4, ano 2007

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foiGuilgaméscomasaventurasgravadasnasuacélebreepopeia,aoEgip-
to,ondemitose lendas seentrelaçamparaquehojepossamos ler as jor-
nadas de deuses e reis que vencematribulados percursos.
Deixando a mitologia e entrando pela história, conhecemos no essen-
cial as grandes vias de comunicação da antigaMesopotâmia. Era atra-
vés de caminhos e veredas,assinaladas no terreno por vestígios de rei-
terados percursos, que seguiamas rotas caravaneiras. Por elas se des-
locavam os homens que seguiam a pé com as suas mercadorias desde
afasepré-histórica,edepois comburros,e,muitomais tarde,comcame-
los.Masnumavastaregiãomuitoricaemcursosdeáguaobarcofoiusado
comgrande eficácia.
Desdepelomenos oVmilénio foramutilizadosnaMesopotâmiaosmui-
tos cursos de água por onde seguiam barcos e jangadas, sendo muito
mais fácil viajar de barco pelos cursos de rios e canais, não só pela rapi-
dez como tambémpor permitir transportarmaiores volumesecommaior
segurança.Algumas cargaspodiamatingir90toneladas,eumbarcocom
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toneladasprecisavaapenasdeseisousetehomensdatripulaçãopara
a sirga, que era necessária sobretudo quando se navegava con-
tra a corrente.
Osdoisprincipais riosdaMesopotâmiaeram
oTigreeoEufrates,cadaqual com
osseusafluentes.OrioTigre,conhe-
cidopor Sumérios eAcádios como
Idiglat,temcercade 1950kmde
extensão, nascendo perto do
monte Ararat, no Curdistão,Ana-
tóliaOriental,ondesegundoa lendabíbli-
caaportouaarcadeNoé.Estegranderioera
navegável desdea regiãodeMossul,embo-
ra o percurso fosse difícil para norte da cida-
H
eródoto, Xenofonte e Estrabão, entre outros grandes viajantes
da época clássica que jornadearampelos territórios das antigas
culturas pré-clássicas,deixaram-nos relatos dando conta dos percur-
sos entre várias regiões e os aglomerados urbanos que visitaram.Mas
outras fontes existem,quer de origemmesopotâmica,egípciaou sírio-
palestiniana. Por elas ficamos a conhecer as viagens colectivas às
grandes cidades santas de Assur e de Babilónia,emconcorridas e ani-
madas peregrinações que ali se faziam, as migrações provocadas
pelas guerras oupor catástrofesnaturais,oua trocade correspondência
entre os vários reinos, que envolvia a deslocação de mensageiros por
vezes a grandes distâncias, a cíclica movimentação de diplomatas e
suas escoltas,e as caravanas que iamvender os seus produtos,espe-
rando a sua rendosa troca por outros. Neste último caso, é paradig-
mática a acção de registo dos mercadores assírios instalados em
Kanech,a centenas dequilómetros deAssur,quenos dei-
xaram abundantes notícias dos seus contactos
com os habitantes da Anatólia Oriental. Do Egip-
to chegaram-nos muitas notícias de movimen-
tação de caravanas e de tropas, quer em direc-
çãoàNúbiaquer emdirecçãoaoCorredor sírio-
palestiniano. E daqui, desta região de pas-
sagem, onde pontificavam as estraté-
gicas cidades de Jafa, Meguido e
Kadech, além das ricas cidades por-
tuárias da Síria doNorte,ficaram-nos
textos que nos elucidam acerca do
tema em apreço.
Até a mitologia pré-clássica nos for-
nece copiosos dados, desde a Mesopo-
tâmiaque nos evocao grande viajante que
Comunicar viajando
Viajar no mundo pré-clássico
Luís Manuel de Araújo
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Professor da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (Instituto Oriental)
Modelo de carro sumério de cobre puxado por quatro onagros, III milénio a. C. , Museu de Bagdad.
Barcos e carros assírios representados em portões de bronze, em Balauat, reinado de Salmanasar III, British Museum.