Página 18 - Códice nº3, ano 2006

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ver sobre tabuinhas debarro,queerampequenas ede formaquadrada,
redigindo-se então de cima para baixo. Depois começarama ser usa-
das tabuinhas maiores e rectangulares, previamente preparadas
pelo seu utilizador,o que forçou os escribas amudar a posição damão
esquerda,comque seguravama tabuinha enquanto escreviam.Como
resultado,os signos sofreramuma rotaçãode90graus no sentido inver-
so ao dos ponteiros do relógio,perdendo assimas suas qualidades ico-
nográficas.
Emmeados do II milénio as tabuinhas eramescritas e lidas da esquer-
da para a direita em linhas horizontais. A estilização e a normalização
da escrita cuneiforme tornarama cunha no elemento básico da cons-
trução dos signos. Quando esta escrita ficou completamente defini-
da, a orientação das cunhas foi restringida, e apenas cinco tipos
eram utilizados para a composição de signos mais complexos.
Gradualmente,o valor do somdos signos foi ganhando importância,
enquanto os significados passavam para segundo plano. No entan-
to, esta solução introduziu uma ambiguidade considerável no siste-
ma, já que muitos signos se tornaram polivalentes, com significados
diferentes e vários valores fonéticos.
Os problemas da homofonia, que se mantiveram no sistema cunei-
forme sumero-acádio, geraram uma séria dificuldade suplementar,
pois signos diferentes podiam ter o mesmo som. Para remediar esta
situação foi introduzido umoutro tipo de signo,que, tal como nos hie-
róglifos egípcios, se designa por «determinativo», o qual não se lê
mas presta uma valiosa ajuda na interpretação das palavras, sobre-
tudo para desfazer as ambiguidades resultantes da homonímia,que
aliás era muito frequente em sumério. A grande diferença é que na
escrita hieroglífica egípcia o signo determinativo vai sempre no final
enquanto no sistema cuneiforme sumério-acádio vai geralmente no
princípio.
F
oi na Suméria,no Sul daMesopotâmia,que pela primeira vez apa-
receramsignos que podemos chamar de escrita.De facto,cerca de
3300
a. C. (as datas variam de autor para autor) surgem os primeiros
frustes pictogramas sumérios,emUruk (no nível IV que as escavações
puseram a descoberto). Esses pictogramas iniciais deram origem à
escrita cuneiforme usada na Mesopotâmia e nas regiões vizinhas.
Durante o período sumério de Djemdet Nasr (c. 3200 a 3000 a. C.),em
que o número de signos vai aumentando, foram estabelecidos con-
tactos comerciais e culturais como distante Egipto, deixando lámar-
cas da presença mesopotâmica. Desses contactos terão resultado
as primeiras tentativas de elaboração de uma escrita própria no país
do Nilo,a escrita hieroglífica, embora vários autores defendamque a
criação desta nova escrita se deve a uma iniciativa autónoma.
A língua suméria, de tipo aglutinante, não tem relações com nenhu-
ma outra língua conhecida, e os verbos não têm declinações nem
conjugações, e na sua escrita nota-se a ausência de vários sinais
capazes de reproduzir sons próprios das línguas semitas, como o acá-
dio que vem a seguir, nomeadamente os sons faringais. Os pictogra-
mas representavamas coisas concretas da vivênciadeumpovodeagri-
cultores e de comerciantes, surgindo dificuldades quando foi neces-
sário registar coisas abstractas e conceitos. A solução foi o aprovei-
tamentodas semelhanças prosódicas entrepalavras,paraqueumsigno
referente a um nome concreto fosse utilizado para um nome abs-
tracto. Por outro lado, para aumentar a funcionalidade do sistema,
foramalargados os significados dos signos já existentes:é o caso,por
exemplo, do signo representando um arado, o qual valia para o ins-
trumento agrícola propriamente dito mas também para «arar» e
«
agricultor».
Com o tempo, e com a prática, os iniciais signos pictográficos foram
sendo cadavezmais estilizados,emresultadodaprópriaacçãodeescre-
Da escrita cuneiforme
à escrita latina
Luís Manuel de Araújo
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Professor da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (Instituto Oriental)
A rotação de signos: dos iniciais pictogramas aos signos cuneiformes.