Página 46 - Códice nº2, ano 2005

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só as pessoas importantes se pintavam) mas também importância
sexual,tornandomais apelativoe sedutor o rostobempintado.As varie-
dades de matéria-prima necessária encontravam-se no Egipto, a
malaquite no deserto oriental e no Sinai, e a galena em Assuão e no
mar Vermelho. Contudo, várias substâncias para a pintura dos olhos
eram também trazidas do estrangeiro,como ficou ilustrado,por exem-
plo,numapinturamural de um túmulo de Beni Hassan,onde se vê uma
caravana de asiáticos trazendo,entre outros produtos,pintura preta
para os olhos.
As substâncias corantes, de tipo natural ou sintético, foram utiliza-
das comuma notável abundância e comgrandemestria pelos exímios
artistas eartesãos dopaís doNiloparadar coloraçãoa tudooquedese-
javam. Emesmo que hoje não vejamosmais as cores emmuitosmonu-
mentos,emestátuas ou relevosmurais,oumesmopequenos amuletos,
decepcionantemente descoloridos, a verdade é que no antigo Egip-
to tudo era pintado para dar à obra de arte não apenas mais vivaci-
dade fruitivaeagradável visualizaçãomas pelo simbolismoqueas várias
cores tinham. De resto,as próprias cores conferiamaos objectos uma
carga amulética e mágica.
Para tal eramproduzidos cromatismos diversos a partir de pigmentos
que artistas e artesãos sabiamextrair da natureza envolvente. Obti-
nham-se os pigmentos amarelos a partir de argila contendo várias
quantidades de óxido de ferro (limonite, por exemplo), e os pigmen-
tos vermelhos também eram conseguidos a partir de matéria argilo-
sa contendo óxido de ferro,neste caso hematite,ou ainda a partir do
cinábrio. Quanto aos muito procurados pigmentos azuis eram pro-
duzidos comamaceração de azurite ou de cobalto, de que resultava
o chamado «azul egípcio»,muito típico das estatuetas funerárias e
de outros objectos. Os pigmentos verdes conseguiam-se a partir da
malaquite, entre outros produtos, os pigmentos brancos a partir de
O
Egipto faraónico, conhecido por ter forjado uma brilhante civili-
zação que ainda hoje cativamuita gente, deixou um rico legado
cultural no pensamento religioso e mítico, na literatura e na arte.
Quem hoje visita o Egipto não pode deixar de admirar os vestígios
artísticos mas também se deixará deslumbrar pelo variegado croma-
tismo da paisagem. É que o Egipto é, também, um mundo de cores,
que se destacam por força da geografia do país do Nilo: o azul sem-
pre presente no céu e no rio; o verde exuberante da paisagem; o
amarelodasmontanhas,dos cereaismaduros e sobretudodo sol;enfim,
opreto,a cor do fértil lodoescuroqueoNilodeixavanasmargens depois
da inundação, e que dá o nome ao país: Kemet, «A Negra».
Eraà suanatureza,ricamentepictórica,queos antigos artesãos eartis-
tas egípcios iam buscar a fértil inspiração que a arte demonstra com
os seus apelativos cromatismos,mas era também dela que extraiam
os minerais necessários para produzir os elementos utilizados na pin-
tura, tambémela umveículo de comunicação e de fruição, seja a pin-
tura das vastas superfícies murais de túmulos e templos, seja a pin-
tura dos olhos e do rosto de quem a podia exibir. Para a pintura dos
olhos, tanto homens como mulheres usavam uma substância verde
(
obtida da malaquite), mas também o preto (obtido da galena).
Ambas as variedades eram conhecidas desde a Época Pré-Dinástica
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antes de 3000 a. C.),sendo o preto amais importante. Foramencon-
tradas essas variedades em diversos túmulos, tanto o material de
base,guardado emsaquinhos de tecido ou de couro,ou já pulverizado
ou em pasta, dentro de vasos tubulares, unguentários e outros con-
tentores. Colocava-se em torno dos olhos usando o dedo ou umapli-
cador, um pequeno estilete de marfim, osso, madeira ou metal, que
semergulhava directamente na pasta ou então emágua e depois na
substânciaparaapintura.Quando se falade pinturados olhos noanti-
go Egipto é bom recordar que o gesto tem acuidade socio-política
As cores no Antigo Egipto: um
sensitivo meio de comunicação
Luís Manuel de Araújo
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Professor da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (Instituto Oriental)
Cromatismo natural da paisagem egípcia: o azul do Nilo, o verde da vegetação, o amarelo do deserto montanhoso e de novo o azul do céu.