Página 20 - Códice nº2, ano 2005

20
ço tão sensível, duas outras razões bem importantes estavam, tam-
bém, subjacentes a esta tomada de decisão do poder:
>
Os correios constituíam uma excelente fonte de rendimento, o
que ajudaria a fortalecer os cofres do Estado; e,
>
O controloda circulaçãoda informação eraumaarma indispensável
à consolidação de um Estado centralizado e forte.
José Diogo Mascarenhas Neto
É neste contextodepassagemdaexploraçãodos correios paraasmãos
do Estadoque surgea figuradoDr.JoséDiogoMascarenhas Neto,após
um compreensível período e transição de mais de um ano e meio. De
factoe,apesar de ter sido iniciado todoeste complicadoprocesso,ainda
no ano de 1797,seria somente a 20de Janeiro de 1799 que estemagis-
trado assumiria, de facto, o lugar de superintendente geral dos Cor-
reios e Postas do Reino.
Sabe-se que nasceu emAlcantarilha,no Algarve,em 1752,sendo filho
do Dr. João Jacinto Neto, capitão-mor de Silves e de D. Ana Paula de
Mendonça Mascarenhas Neto.
De magistrado a superintendente geral
das Estradas
Depois concluir o curso de Direito, na Universidade de Coimbra, dedi-
cou-se à magistratura, vindo a ser colocado como juiz de fora de Lei-
ria, em 1781.
Cinco anos mais tarde, em 1876, tomava posse como corregedor na
comarca de Guimarães. Nesta cidade, viria a evidenciar grandes qua-
lidades,elaborandouma interessanteestatísticada comarca,quededi-
cou ao Governo, com curiosas observações sobre as actividades eco-
nómicas da região de Entre-Douro e Minho.
Muito provavelmente por se ter distinguido neste lugar,em 1788,viria
E
m 2005, ano em que passam dois séculos sobre o terminus do
consulado do Dr. José Diogo Mascarenhas Neto como superin-
tendente geral dos Correios e Postas do Reino, impõe-se, com toda a
justiça, uma breve reflexão sobre acção deste grande estratega dos
correios portugueses.
Pode-seafirmar,semqualquer espéciededúvida,queoDr.Mascarenhas
Neto se encontra entre as personalidades que maior importância
tiveram no desenvolvimento dos sistemas de comunicações implan-
tados em Portugal.
Apesar da curta duração do seu mandato à frente dos destinos dos
correios (perto de seis anos), viria a revelar-se como um homem de
extraordinária visão e capacidade organizativa,que nos permite con-
siderá-lo como o nosso primeiro reformador dos serviços postais.
Porém, antes de se referir a acção de Mascarenhas Neto, enquanto
homem da mudança
,
parece-nos importante fazer umbreve relance
sobre a evolução dos Correios,comespecial destaque,paraosmomen-
tos imediatamente anteriores à sua chegada ao cargo de superin-
tendente geral dos Correios e Postas do Reino.
O Estado assume a exploração dos Correios
O despotismo esclarecido, reinante na segunda metade do século
XVIII, não se coadunava com a ideia de que um serviço tão sensível
como o dos correios pudesse estar nas mãos de particulares. Assim,
reclamando a necessidade de dotar o país de uns correios de cariz ver-
dadeiramente públicos e assumir a exploração de umserviço que não
condizia com a actividade privada, era decidida, em 1797, a sua pas-
sagem para a Coroa.
Deve salientar-se,no entanto,que paraalémda evidente necessidade
de criar um serviço de correios mais eficaz, para responder às novas
solicitações dos cidadãos e retirar da exploração particular um servi-
José Diogo Mascarenhas Neto
O Homem da Mudança
Fernando Moura
|
Licenciado em História Pela U. L. - Quadro Superior da FPC
José Diogo Mascarenhas Neto, (1799-1805), arquivo iconográfico da FPC.