Página 36 - Códice nº1, ano 2004

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Allô
Lisboa
Alfredo Anciães
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Licenciado em História pela UAL - Quadro Superior da FPC
D
iversos contratempos, emnosso entender,atrasarama entrada
em funcionamento da ligação telefónica entre Lisboa ao Porto,
privando as duas maiores cidades portuguesas de um recurso de
comunicação durante muitos anos.
Apresentamos algumas razões que motivaram tal atraso, evocando
os participantes nos projectos de construção, ensaio emanutenção,
nestes primeiros tempos da telefonia,desde os trabalhadoresmenos
diferenciados, cujos nomes não ficaram para a História, passando
pelos técnicos especialistas - Bramão, Herrmann, Rysselberghe,
Mecânicos/Guarda-fios, Electricistas, Engenheiros, Inspectores e
Telefonistas.
O período
regenerador
e as comunicações
O período
regenerador
havia contemplado o desenvolvimento das
comunicações:caminhos-de-ferro,estradas,Mala-Posta e telegrafia
eléctrica. Já a telefonia,por ter sido inventada e produzida findo este
período (Serrão,Joel,1981),não logrouuma introdução rápidapelo ter-
ritório nacional.
Após o invento do telefone,Portugal não tarda a adoptá-lo emesmo
emmelhorá-lo com inovações,aliás,registadas empatentes (CTT/TLP,
1979).
Contudo, foi necessário esperar pelo ano de 1904 para que as
duas primeiras redes oficiais de Lisboa e do Porto comunicassem
entre si.
A influência da telegrafia sobre a telefonia fez-se sentir a vários
níveis:comoumconceitoobstáculo,numaprimeira fase,tendoemconta
os poderes públicos que emprimeiro lugar utilizavamo telégrafo.Ora,
estes poderes públicos estavam relativamente bem servidos comum
sistema de comunicação à distância por via telegráfica.
O Telefone era ummeio mais directo, mais intimista e menos formal,
mais adaptado, por isso, à sociedade civil, em geral. Estas valências
haviam de se divulgar, de modo a criar-se uma nova necessidade -
-
falar/comunicar à distância. Mas numa segunda instância, já com
o dobrar do século XIX para o XX, o serviço telegráfico passa também
a servir e apoiar o telefone:
«
São applicaveis ao pessoal e serviço [telefónico] das estações ter-
minaes do Estado as disposições das leis, regulamentos e instruções
em uso nos serviços telegraphicos do Estado; Compete á Inspecção
Geral dos Telegraphos e Industrias Electricas a elaboração das ins-
trucções technicas necessarias para o desempenho dos serviços [tele-
fónicos]»
1
Iniciado o século XX, começa a ser mais evidente uma atitude de
mudança na sociedade, a par de uma Imprensa mais visível, que usa
e divulga as telecomunicações. Apresentamos como exemplo um
anúncioemgrandeplano,publicadono jornal «OSéculo»de 16deAbril
de 1904 (após escassos cinco dias da inauguração da linha Lisboa -
-
Porto) emqueé incluídauma imagemdeumcavalheiroedeumadama
ao telefone,ambos com traje vistoso,insinuantemesmo,ao estilo bur-
guês da época
2
.
Vários fios eléctricos unem os dois interlocutores,
que seguramdoismicrofones clássicos com
design
gracioso de punho.
Uma grande legenda, entre os dois interlocutores, começa assim:
«
Está lá?
Estou.
Recebeste?
Recebi.
OlhaMathilde o nosso encontro no Chiado não póde têr logar hoje.
Porquê?
Porque hoje não se póde la passar [...]».
O diálogo do anúncio continua em termos de publicidade de uma
nova emoderna retrosaria com imagemassociada ao tambémnovís-
simo telefone.Vai-se criando a apetência por uma nova
Grupo de Telefonistas. Finais do Séc. XIX.
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